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Mulheres em transição de carreira: por que começar do zero parece custar mais caro?

Foto do escritor: Tatiana Alencar
Tatiana Alencar
há 6 minutos
3 min de leitura

Mudar de carreira exige coragem. Para muitas mulheres, exige também enfrentar um

mercado que nem sempre reconhece suas experiências anteriores.


Foto/Reprodução: Pexels
Foto/Reprodução: Pexels


A tecnologia costuma ser apresentada como um dos caminhos mais promissores para quem deseja construir uma nova trajetória profissional. Cursos de programação, bootcamps, formações em UX/UI e oportunidades no universo digital atraem cada vez mais pessoas interessadas em migrar para o setor. Mas existe uma questão pouco discutida nessa jornada: por que, para tantas mulheres, entrar na tecnologia parece significar começar do absoluto zero?


Uma profissional que passou dez anos trabalhando com comunicação, educação, administração ou qualquer outra área não perde automaticamente suas competências ao decidir mudar de profissão. Ainda assim, é comum que essas experiências tenham pouco peso nos processos seletivos quando o destino é o mercado de tecnologia.


O problema começa quando o conceito de experiência profissional fica restrito ao domínio de ferramentas e linguagens específicas. Habilidades como comunicação, pensamento crítico, organização, resolução de problemas, gestão de projetos e compreensão das necessidades dos usuários também são fundamentais para o desenvolvimento de produtos e serviços tecnológicos. No entanto, nem sempre são reconhecidas como diferenciais por recrutadores.


Uma mudança que esbarra em desigualdades antigas

Os números ajudam a dimensionar o desafio. Segundo o estudo W-Tech 2025, do Observatório Softex, as mulheres representam apenas 19,2% dos especialistas em Tecnologia da Informação no Brasil. São aproximadamente 89,7 mil profissionais em um universo de quase 470 mil.


Ao mesmo tempo, uma pesquisa da McKinsey sobre a participação feminina no mercado de tecnologia na América Latina identificou que, nas empresas brasileiras analisadas, 22% das mulheres que ocupam cargos em tecnologia vieram de uma mudança de carreira.


O dado revela algo importante: a transição profissional feminina já faz parte da realidade do setor. Entretanto, ainda existem barreiras para transformar o interesse e a qualificação em oportunidades concretas.


A exigência de experiência prévia para vagas de nível júnior, a concorrência por posições de entrada e a necessidade de investir em novas formações podem tornar esse processo especialmente desgastante. Para quem já possui uma trajetória consolidada, aceitar uma posição inicial também pode significar enfrentar uma redução salarial ou abrir mão de anos de reconhecimento profissional.


O peso de começar novamente

A transição de carreira não acontece em condições iguais para todas as pessoas. Muitas mulheres precisam conciliar trabalho, estudos, responsabilidades familiares e tarefas domésticas enquanto tentam adquirir novas competências.


Nesse contexto, o tempo disponível para estudar, desenvolver projetos, participar de eventos e construir networking não é necessariamente o mesmo para todos.


Também existe uma questão simbólica: a sensação de precisar provar novamente a própria capacidade. Uma profissional experiente pode se ver na posição de justificar sua trajetória, explicar sua mudança e demonstrar que está preparada para ocupar um espaço em um setor historicamente marcado pela predominância masculina.


Isso não significa que a transição será fácil ou que toda experiência anterior será automaticamente aproveitada. Aprender novas ferramentas e desenvolver conhecimentos técnicos faz parte do processo. Mas reconhecer competências transferíveis é fundamental para que a mudança não seja confundida com ausência de experiência.


O que as empresas podem fazer diferente?

Se o mercado deseja ampliar a participação feminina na tecnologia, não basta incentivar mulheres a estudar programação ou oferecer cursos de capacitação. É necessário também rever os critérios utilizados para selecionar profissionais.


Algumas iniciativas podem contribuir para esse cenário:


Valorizar competências transferíveis: considerar experiências anteriores em comunicação, gestão, educação, atendimento e resolução de problemas.


Criar oportunidades de entrada: ampliar programas de estágio, trainee, formação e contratação de profissionais em transição de carreira.


Rever exigências das vagas júnior: evitar requisitos desproporcionais ao nível de experiência esperado.


Investir em mentoria: aproximar mulheres em transição de profissionais que já atuam no setor.


Promover ambientes inclusivos: garantir que diferentes trajetórias sejam respeitadas e reconhecidas.


A diversidade não deve ser tratada apenas como uma meta institucional, mas como uma oportunidade de incorporar diferentes perspectivas à construção de soluções tecnológicas.


Não é preciso apagar o passado para construir o futuro

Mudar de carreira não significa começar do zero. Significa começar de outro lugar, levando consigo experiências, conhecimentos e habilidades construídos ao longo de uma vida profissional.


Uma jornalista que aprende UX, uma professora que migra para análise de dados ou uma administradora que decide estudar desenvolvimento de software não são profissionais sem experiência. São mulheres que estão ampliando suas possibilidades e levando novos repertórios para o setor.


Talvez a pergunta que o mercado de tecnologia precise fazer não seja apenas quantas mulheres estão dispostas a entrar nesse universo, mas quantas oportunidades estão sendo criadas para recebê-las.


Afinal, não podemos falar em democratização da tecnologia enquanto tantas mulheres precisam provar duas vezes seu valor: primeiro, para construir uma carreira; depois, para conseguir recomeçar.


O futuro da tecnologia também depende da capacidade de reconhecer talentos que não nasceram dentro dela.


 
 
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