De São Gonçalo para a Steam: “Aviãozinho do Tráfico” celebra novo lançamento em evento na Nave do Engenhão

Com marketing orgânico, franquia independente acumula público internacional, 70 mil wishlists e chega ao quarto capítulo após uma trajetória que passa por breakcore, comunidades online e a história da iD Software.

Foi na Nave do Conhecimento do Engenhão, espaço na Zona Norte do Rio de Janeiro que marcou a história da promoção pública de esports no Brasil, que a franquia Aviãozinho do Tráfico celebrou, no último dia 19, o lançamento de seu quarto capítulo. Criado pelo desenvolvedor independente Joeveno, o novo jogo chegou à Steam mantendo a mistura de humor, referências à cultura suburbana e estética caótica que se tornou característica da série — desta vez, com um novo vilão e, é claro, novas armas.
O espaço, que conta com uma Arena Gamer dedicada ao treinamento e à transmissão de eventos de esports, recebeu uma palestra de Joeveno sobre o processo de criação da franquia. Em uma conversa informal e próxima do público, o desenvolvedor compartilhou experiências sobre os desafios de começar na indústria de jogos, a importância do playtest e o papel do senso de comunidade na construção de um projeto independente. Ao longo do evento, computadores ficaram disponíveis para que os participantes pudessem experimentar o jogo na íntegra. Ao final, 50 chaves do título foram sorteadas entre os presentes.

Natural de São Gonçalo, Joeveno transformou referências de sua trajetória pessoal em matéria-prima para os jogos. A cidade e o imaginário da região aparecem de diferentes maneiras na franquia, que combina elementos da cultura local a uma estética deliberadamente exagerada e absurda.
Antes da carreira nos jogos, Joeveno já tinha uma relação com a música. DJ ligado a cena breakcore, ele incorporou à franquia parte da própria trajetória musical: as trilhas sonoras dos jogos são compostas por músicas com as quais trabalhou antes de começar a desenvolver games. Apesar disso, ele deixa claro que não é resultado de fenômenos do “sucesso de primeira”, como o popular Stardew Valley. Aviãozinho 3 foi, na verdade, seu 12º projeto.
Mais peculiar, só o marketing mesmo
A estratégia de divulgação também fugiu do modelo tradicional: nenhum real foi investido em publicidade para seus jogos. Em vez de campanhas pagas, a divulgação aconteceu organicamente por comunidades de Discord e Reddit, além do contato direto com criadores de conteúdo. Com o sucesso da divulgação, chegou a responsabilidade de publicar na Steam. Através de uma plataforma de financiamento coletivo, o jogo conseguiu bater a meta em apenas 3 horas.

Publicações de nomes importantes da cena, como o desenvolvedor Hakita, criador de ULTRAKILL, ajudaram a ampliar a repercussão internacional da franquia na plataforma X. Tal acontecimento desencadeou o interesse de youtubers de plurais países reagindo ao novo fenômeno brasileiro. Os números mostram que a linguagem particularmente brasileira da franquia não impediu sua circulação internacional — pelo contrário, parte significativa de seu público está fora do país. Hoje, 40% das vendas vêm dos EUA e 23% oriundas do Brasil.
O quarto capítulo chega com uma comunidade já consolidada. Em apenas três dias de lançamento, Aviãozinho do Tráfico Pré 4 alcançou 70 mil wishlists e registrou 98% de aprovação na Steam.
Em contato com os mestres
A história da franquia também se conecta diretamente a uma das raízes do desenvolvimento independente de jogos. Durante a última QuakeCon, evento anual de celebração de franquias da iD Software, Joeveno teve a oportunidade de conversar pessoalmente com três nomes fundamentais da história da empresa que o inspirou: John Romero, John Carmack e Tom Hall.
John Romero
“A conversa com o Romero foi ótima, ele já estava pela QuakeCon perguntando se as pessoas ‘viram o jogo feito na engine de Quake’, divulgando o meu jogo. Ele é um grande exemplo de adaptação. Ele me contou que reduziu drasticamente a pirataria de um de seus jogos apenas negociando sua engine por um preço mais acessível. Acho que é muito sobre dar serviço.”
Tom Hall
Tom Hall, um dos nomes ligados à criação do jogo Rise of the Triad e à consolidação dos chamados boomer shooters, passou parte da madrugada jogando ao lado dos participantes do evento.
“Ele achou a ideia da arma de chuveiro elétrico muito boa. Mostrei o port de AVIÃOZINHO 3 que fiz para o sistema DOS e ele ficou animadíssimo.”
John Carmack
O encontro com John Carmack teve outro significado. Ao contar ao cofundador da id Software sobre a importância de ter acesso à engine de Quake e como isso mudou sua vida, Joeveno ouviu de Carmack uma explicação sobre a própria origem de sua defesa pelo open source (código aberto).
“Carmack disse que, quando era mais novo, o RPG Ultima 2 era seu jogo favorito. Ele ficava muito frustrado de não conseguir mexer no código do jogo para entender o motivo do jogo ser tão bom. Por isso, apesar de tanta reprovação e afirmações de que iria se arrepender, ele fez questão de deixar a engine aberta para todos.”
O copiloto é mulher
Nos bastidores da franquia também está Aline, produtora que participa do desenvolvimento da série ao lado de Joeveno. Também natural de São Gonçalo, ela contribui principalmente com ideias para mapas, divulgação e referências.

“Eu basicamente dou ideias ao Joeveno. Também sou de São Gonçalo, então nossas referências são muito de onde viemos. Ideias para mapas, principalmente para divulgação. Nunca fui muito do antro dos jogos, caí aqui de paraquedas como amiga e hoje sou parte disso. O mundo gamer é muito misógino e isso é um dificultador. Já passei por momentos em grandes eventos onde fui excluída por não acharem que faço parte também. Estar presente faz parte da mudança.”
Apoiar os jogos é apoiar políticas públicas
A Associação de Criadores de Jogos do Estado do Rio de Janeiro (ACJOGOS-RJ) foi apoiadora oficial do evento. A entidade também aproveitou o encerramento para chamar atenção para o Projeto de Lei 3.612/2026, conhecido como PL dos Games Vivos, apresentado no contexto das discussões internacionais associadas ao movimento de preservação Stop Killing Games.

Entre a cena independente brasileira, comunidades online e as ferramentas que ajudaram a moldar a indústria dos games, Aviãozinho do Tráfico construiu uma trajetória pouco convencional e inspiradora. O quarto capítulo chega agora a um público que já ultrapassa as fronteiras brasileiras — mas demonstra que é possível preservar sua identidade com referências regionais sem perder o seu charme.
AVIÃOZINHO DO TRÁFICO PRÉ 4: SOBRARAM DEMONIOS DO PORTAL PRO INFERNO NA FAVELA QUE ABRI E AGORA TENHO QUE SALVAR OS MAMADAS DO RONALDO já está disponível para PC pela Steam, com preço promocional de lançamento.